Entre a criação e o risco: o papel dos contratos nas colaborações da moda
- Carolina Lago Advocacia

- 22 de jan.
- 2 min de leitura
As colaborações se tornaram um dos principais motores criativos e estratégicos da moda contemporânea. Em especial nos contextos de desfiles e fashion weeks, parcerias entre marcas, designers e profissionais criativos são apresentadas como alianças naturais, quase orgânicas. No entanto, por trás dessa narrativa colaborativa, existe um fator frequentemente negligenciado: a ausência de estrutura jurídica adequada.
O desfile de moda não é apenas um evento estético. Trata-se de uma operação complexa, que envolve múltiplos agentes, investimentos relevantes e impactos diretos na imagem e no valor comercial das marcas envolvidas. Quando essas relações se apoiam apenas em confiança ou acordos informais, o risco jurídico se instala de forma silenciosa.
Cada desfile mobiliza uma cadeia extensa de profissionais: estilistas, produtores, fornecedores, fotógrafos, modelos, maquiadores, cabeleireiros, influenciadores e patrocinadores. Cada uma dessas relações demanda definição clara de escopo, responsabilidades, direitos autorais, uso de imagem e contrapartidas financeiras. Sem contratos bem estruturados, o que deveria funcionar como coordenação se transforma em fragmentação.
A informalidade, comum nos bastidores da moda, gera um ambiente propício a disputas. Questões como quem detém a autoria criativa, quem responde por falhas operacionais ou quem arca com prejuízos de imagem raramente são discutidas antes do evento. O resultado é um cenário em que conflitos surgem quando o dano já está consolidado.
Outro ponto sensível está na linha tênue entre colaboração e desequilíbrio contratual. É recorrente a naturalização de trabalhos não remunerados sob a promessa de visibilidade. Do ponto de vista jurídico, essa prática desafia princípios como a boa-fé objetiva, o equilíbrio entre as partes e a função social dos contratos, sobretudo quando há geração concreta de valor econômico para apenas um dos envolvidos.
Além disso, o impacto de um desfile ultrapassa o momento da passarela. Hoje, ele influencia vendas, engajamento digital, posicionamento de marca e estratégias comerciais futuras. Ainda assim, cláusulas relacionadas à performance, gestão de crise, proteção reputacional e retorno sobre investimento costumam ser ignoradas, deixando marcas vulneráveis em cenários adversos.
A profissionalização da moda exige compreender que criatividade e segurança jurídica não são opostas. Pelo contrário: contratos bem estruturados funcionam como instrumentos de organização, prevenção de conflitos e sustentabilidade do negócio. O direito, nesse contexto, não engessa o processo criativo — ele o sustenta.
Mais do que glamour, o mercado da moda precisa de previsibilidade, clareza e responsabilidade compartilhada. Collabs bem-sucedidas não se constroem apenas com estética, mas com governança. E essa governança começa nos bastidores, antes mesmo do primeiro look entrar na passarela.
Para conhecer os nossos serviços ou entender como o escritório pode auxiliar a sua marca, acesse o link https://linktr.ee/carolinalagoadvocacia




Comentários